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Primeira vez: posto de gasolina


Finalmente, as amigas iriam iniciar o plano de conhecer uma província canadense por ano.

Cabot Trail, Pleasant Bay, Nova Scotia. Foto: Luis Almeida.

Letícia Tórgo é escritora, tradutora e produtora cultural

Sofia estava mais do que animada com a viagem. Acordou cedo, chamou um Uber, pegou as malas e partiu para o aeroporto. Encontrou Kamilla no café do embarque, levemente mau-humorada, como de costume. Ainda não eram oito da manhã.

Juntas embarcaram para Halifax. Finalmente, as amigas iriam iniciar o plano de conhecer uma província canadense por ano. Secretamente, havia algo que deixava Sofia ainda mais ansiosa por esta viagem: ela iria alugar seu primeiro carro e dirigir por toda Cabot Trail.

No Brasil, era “a motorista da galera”. Ao imigrar, como você sabe, zeram os pontos. É preciso recomeçar. Esta era a primeira vez que iria dirigir em quase um ano no Canadá. Passou na prova teórica raspando, mas mandou bem na prática, se policiando para parar a cada esquina e dar a ré virando completamente a cabeça.

Do aeroporto, partiram direto para a locadora. Revisou o carro, olhou o marcador de combustível e assumiu o volante, segura de si. Logo na primeira esquina gritou: teto solar! Apertou o botão com toda a força e ficou animada com a possibilidade do sol sobre sua cabeça em Cape Breton. Três minutos. Os cabelos de Kamilla voando em todas as direções e o vento levemente gelado dentro do carro acabaram com sua brincadeira. Tentaria novamente outro dia.

Não era uma viagem de luxo, mas a lagosta com vinho branco da primeira noite fez as duas voltarem “altinhas” para o aconchegante bed and breakfast reservado online. Oh, Canadá.

Farol em Peggy’s Cove, Nova Scotia. Foto: Luis Almeida.

No dia seguinte, pé na estrada. Parar para fotografar não era problema, desde que uma “tagueasse” a outra no Instagram. Enquanto o sol brilhava lá fora, chovia likes naquela horta.

Finalmente, uma luz amarela deu o alerta no painel: combustível entrando na reserva. A co-pilota olhou no GPS o posto mais próximo enquanto a pilota controlava o limite de velocidade. Pé pesado, sua mãe diria. Ao chegar, Sofia encostou o carro e desceu para abastecer pela primeira vez. Como abrir a tampa? Quanto pagar? O que fazer? A vida por aqui é repleta de infinitas “primeira vez”.

Começou a ler as instruções e seguir o passo-a-passo na tela. Não sabia a capacidade do tanque e não tinha ideia de quanto gastaria. Meteu “cenzinho” no visor para não ter que parar tão cedo. Aparentemente, tudo certo. A “motorista da galera” agora tinha qualificações de frentista. E ela estava amando segurar aquela mangueira.

Quando o visor marcou cinqüenta e dois, ela ouviu um estalo. A bomba parou. Pára! Cinqüenta dólares dá pra se esbaldar em lagosta! Como uma boa iniciante na arte de abastecer, ela não sabia que seria cobrada apenas o que consumisse.

Até a última gota, pensou. Essa gasolina vai ter que entrar… Cinqüenta e nove, sessenta e três, sessenta e quatro… O jeitinho brasileiro falou mais alto e lá foi ela sacudir o carro para entrar um pouco mais. Kamilla ria alto no banco da frente chamando a amiga de louca, para variar.

De repente, a gasolina derramou para fora do tanque. Desespero. Imaginou uma versão brasileira de Telma & Louise explodindo um posto no meio nowhere em Nova Scotia. Tentou se acalmar. Pediu ajuda para a amiga. Esfregão, água na sapatilha, medo de manchar o carro. O vendedor da loja de conveniências falou algo pelo alto-falante, mas elas não entenderam absolutamente nada. “Acho que deu merda, vambora.”

Guardou a bomba, o esfregão e pegaram a estrada, não sem antes parar no meio-fio para ver se haviam danificado a pintura. Tudo certo e uma bela história para contar.

O cheiro de gasolina grudava nas narinas. Finalmente, Sofia pôde abrir o teto solar.

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