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Notícias da Baixada: o sistemático no Brasil


Jade se apaixonou pelo Cigano Igor; Jamanta mata Sandrinha; Cristiano voltou do Brasil e começou a contar caso.

Foto: Beverly Buckley.

Cristiano de Oliveira é colunista do Jornal de Toronto

Ano XIV, Parte 2

Saudações, baianos de Alpercata.

Resumo do capítulo anterior: Dona Armênia mandou Tony Ramos jogar a Torre de Babel na chón. Jade se apaixonou pelo Cigano Igor e foram os dois posar pra foto do rótulo da Catuaba Selvagem; Jamanta mata Sandrinha; Cristiano voltou do Brasil e começou a contar caso: é a parte final das tradicionais “Notícias da Baixada”, o único noticiário do Brasil estritamente dedicado àquilo que ninguém quer saber.

• Essa febre de cerveja artesanal no Brasil já me cansou. Você chama o povo pra tomar uma e já escuta: “curte uma IPA?”. Pronto, eu já quero até tomar chá de losna, mas não quero cerveja mais. Que preguiça! Gosto de cerveja pra acompanhar os assuntos, não pra ser o assunto. Até outro dia, todo mundo ia pro bar e tomava até Conhaque de Alcatrão São João da Barra se estivesse gelado, com a grade no chão pra ir colocando as garrafas vazias. Agora você propõe um entretenimento sadio como esse e o povo recusa porque “é de milho”. Vá se lascar! Passou a vida tomando milho e morrendo de achar bom, agora vai virar pra mim e dizer que viu a luz num copo de Lager de jaca argentina e caracol véio da Malásia? Pro inferno todos porque eu quero é milho! Cerveja pra mim são duas: branca e preta, conhecidas e apreciadas por gente de todo tipo, cumprindo sua missão de unir o rico e o pobre numa espécie de socialismo alcóolico, mas obviamente arrumaram um jeito de elitizar a cerveja e criar um muro de milho entre as classes sociais. Pois eu não vou pro Brasil tomar uma cerveja sabor barraca do raizeiro, vou tomar cerveja do jeito que eu me recordo de cerveja. Que se dane as modinhas, porque eu não tô bebendo pra fazer graça, eu tô bebendo pra achar graça. Portanto, se você me vir na rua aqui em Toronto enxugando cerveja barata, é só protesto, não é cachaçada não, viu?

• O português brasileiro é uma língua espetacular que nos dá milhões de possibilidades de escrita e fala, mas infelizmente ninguém dá valor ao que tem (até perder), e com isso o que se vê no Brasil é todo mundo tentando colocar alguma coisa em inglês em tudo que se fala e escreve. Liquidação é coisa do passado, agora é “sale”. Que Sale é esse, é filho de Seu Sales da Acadia? Já não existe desconto, tudo é “off”. Aliás, desculpa aí, não é off, é ófi. O trailer do Renato, tradicional ponto de encontro das mais intelectualizadas baratas e ratazanas da capital mineira, agora é Renato Fine Burguers! Você pode chamar um x-tudo daqueles de qualquer coisa, menos de “fine”! E cerveja agora vem da “brewery” no “growler”. Growler da brewery não, irmão… aí cê mata Sandrinha. Aí cê tá pedindo “bullying”! Ninguém pega serviço mais, pega “job”. É, eu já tinha desconfiado mesmo que havia uma certa falta de serviço envolvida nisso.

Mas ainda assim, o Brasil é um barato. Voltar lá é sempre uma lembrança do quão importante são as pequenas coisas, os pequenos prazeres que não há dólar que pague. Como eu disse acima, só se dá valor ao que se perde.

Adeus, cinco letras que choram.

Sobre Cristiano de Oliveira (13 artigos)
Cristiano é mineiro, atleticano de passar mal, formado em Ciência da Computação no Brasil e pós-graduado em Marketing Management no Canadá. Foi colunista do jornal Brasil News por 12 anos. É um grande cronista do samba e das letras.

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