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Em busca da felicidade


A ideia de que devemos controlar os pensamentos negativos, ao contrário do que se acredita, tem trazido muito sofrimento.

“The happy face”, um estado natural?

Elizabeth Schulz é psicóloga em Montreal

Existe uma convicção de que para sermos mais felizes devemos controlar as nossas emoções e os nossos pensamentos negativos. Esta ideia se propagou pela mídia nos últimos anos e, ao contrário do que se acredita, tem trazido muito sofrimento.

O médico e terapeuta Russ Harris, em seu bestseller The Happiness Trap: how to stop struggling and start living [Liberte-se: evitando as armadilhas da procura da felicidade], nos diz que todos somos guiados por crenças sobre a felicidade. Infelizmente estas, em sua grande maioria, são enganosas! Harris trabalha com a Terapia de Aceitação e Compromisso (TAC ou ACT, sigla em inglês para Acceptance and Commitment Therapy). Em seu livro, ele fala sobre algumas dessas crenças ou mitos:

A felicidade é um estado natural

Esse é um forte mito da cultura ocidental. No entanto, percebemos uma realidade bem oposta à nossa volta! O mundo moderno traz desafios que há 100 anos atrás seriam mesmo inimagináveis! Somos bombardeados com notícias e imagens como nunca antes e, consequentemente, sofremos grande impacto com essas mudanças.

Dados estatísticos de 2011 indicam que o uso de antidepressivos e de medicação para a ansiedade aumentou em quase 400% entre 1988 e 2008, somente nos Estados Unidos. Um em cada 10 americanos já foi diagnosticado com depressão e calcula-se que este número cresce à 20% ao ano. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de algum tipo de depressão.

Nós somos sempre capazes de controlar o que sentimos e pensamos

A mente humana sofreu mais de cem mil anos de evolução para chegar onde chegou e funcionar como funciona! Ela é capaz de fazer planos, criar coisas, resolver problemas e aprender com a experiência. Isso nos torna seres superiores e capazes de modificar o ambiente à nossa volta. Mas por causa desta grande capacidade, concluímos erroneamente que podemos controlar os sentimentos e pensamentos; consequentemente, se não conseguimos fazê-lo, experimentamos uma sensação de fracasso, como se houvesse algo de errado conosco ou em nossas vidas.

Se você não é feliz, há alguma coisa errada contigo!

Por acreditarmos que a felicidade é um estado natural e que podemos sempre controlar os pensamentos e as emoções, as sociedades ocidentais percebem o sofrimento como anormal, como uma fraqueza ou como produto de uma mente defeituosa ou doente! Mas, se observarmos bem, tudo o que vale a pena para nós virá permeado por sentimentos bons e ruins. Por isso mesmo, não se pode fugir dos sentimentos desagradáveis sem o perigo de nos afastarmos também do que nos é mais valoroso e importante!

Tudo o que julgamos ter mais significado em nossas vidas, como relacionamentos íntimos, família, amigos, trabalho etc., nos trazem muitas alegrias, mas inevitavelmente trarão tristezas e decepções também. Esses sentimentos fazem parte constituinte dos desafios da vida e do viver!

Veja a situação de alguém que vai se casar: Quantas expectativas e quanto prazer! Mas, ao mesmo tempo, sabemos dos muitos estresses e frustrações que geralmente ocorrem durante os preparativos para uma festa. E somamos aqui muitos outros momentos, como a chegada tão esperada de um filho, que traz tantas alegrias, mas também ansiedades e angústias – antes, durante e depois do nascimento.

Steven Hayes, pesquisador, psicólogo e autor de 27 livros sobre a Terapia de Aceitação e Compromisso, afirma que “a aceitação da dor é um passo importante para se livrar do seu sofrimento”, e que “todas as artimanhas que criamos para escapar da aflição nos desviam de nossos objetivos de vida. São esses objetivos que fazem a vida valer a pena”.

Se realmente desejamos uma vida comprometida com aquilo que acreditamos ser importante para nós, precisamos saber aceitar todas as experiências emocionas que ela oferece, mesmo que às vezes estas sejam desprazerosas. Em suma, a vida feliz acomoda uma gama enorme de emoções diferentes e muitas vezes contraditórias! Assim como no verão há dias chuvosos e frios, uma vida feliz será permeada de experiências e sentimentos imprevisíveis e muitas vezes dolorosos. E isso faz parte da vida.

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