Serviços em português para a comunidade LGBTQIA+

Organizações ofererem atendimento e programas gratuitos para falantes do idioma em Toronto

Primeiro "Queer Brazilian Townhall" do The 519, em 2024, foi um evento de sociabilização para conectar a comunidade de língua portuguesa. Foto: Acervo The 519.

Luis Augusto Nobre é comunicador institucional

A imigração é algo comum na história da humanidade e do Canadá. O país se fez atrativo graças às políticas de imigração oferecidas nas últimas décadas e, apesar das recentes mudanças implementadas pelo governo, pessoas de diversas nacionalidades, grupos étnicos e identidades têm migrado em busca de novas oportunidades ou refúgio. Dentre elas, houve um aumento considerável no fluxo de imigrantes cuja língua materna é o português.

Por contexto histórico, grupos de portugueses vieram para o Canadá a partir anos 1950. Já a imigração de pessoas vindas do Brasil se fez mais intensa nos últimos 15 anos. Dados apresentados pelas repartições diplomáticas brasileiras no Canadá nas eleições presidenciais de 2022 apontaram um aumento de 77,2% no número de eleitores – não considerando toda a população de imigrantes brasileiros em território canadense. Segundo dados do censo de 2021 disponibilizados pela Prefeitura de Toronto, o português é o quinto idioma não-oficial mais falado na cidade.

Dentre os falantes de português, muitos se identificam como membros das comunidades LGBTQIA+. O Canadá é considerado um dos países mais seguros do mundo para pessoas queer e trans. Esta população específica procura por serviços sociais ou de saúde em organizações mais inclusivas, que se adaptaram à nova demanda e aos atendimentos em português. 

Este foi o caso da PrEP Clinic, uma clínica de saúde sexual que oferece serviços gratuitos e acessíveis de prevenção e tratamento a infecções sexualmente transmissíveis, incluindo HIV e AIDS. Farmacêutica por formação no Brasil, Aline Zorzetto trabalha como Especialista no Cuidado do Paciente e foi a primeira falante de português contratada. Hoje, a clínica conta com três profissionais de origem brasileira ou portuguesa em dois departamentos, mas que colaboram com atendimentos aos pacientes quando solicitado. “Muitas pessoas ficam receosas em pedir ajuda de tradução, mas é extremamente importante compreender todas as informações compartilhadas para os tratamentos”, afirma Aline.

Outro exemplo de organização com serviços em português é o The 519, uma agência da Prefeitura de Toronto que funciona como centro comunitário para as comunidades LGBTQIA+. Com falantes do idioma no quadro de empregados em diversos departamentos, sete funcionários se uniram para criar programações para brasileiros queers. A iniciativa busca promover os serviços gratuitos da instituição e aumentar a sociabilidade de brasileiros na cidade. Bárbara dos Santos, Coordenadora de Saúde Pública e Justiça, trabalha para o The 519 desde 2021 e é uma das sete pessoas envolvidas no projeto. “Quando o programa se iniciou em 2024, muitos brasileiros desconheciam o The 519 e os acessos aos serviços oferecidos, independente do status no país”, pondera Bárbara. Por meio de eventos de integração social e participação ativa da própria comunidade, o programa tem ampliado o acesso aos serviços gratuitos oferecidos, como saúde, saúde afirmativa, clínicas de imigração, habitação etc. Hoje, o centro conta com uma pessoa dedicada a coordenar iniciativas e programas voltados para falantes de português e espanhol.

Equipe de brasileires que trabalham para o 519 e que organizam os eventos. Foto: Acervo The 519.

Vale ressaltar que diversas entidades trabalham com imigrantes ou população LGBTQIA+; porém, muitas delas oferecem programas e atendimento em português somente enquanto profissionais lusófonos fazem parte dos seus quadros, ou enquanto conseguem manter verbas dedicadas para tais iniciativas. Múltiplos projetos e organizações foram criados e cessaram ao longo dos últimos anos por falta de investimentos ou de apoio institucional nesta interseção de falantes de português e comunidades LGBTQIA+.

Com serviços sociais e de saúde para prevenção e para pessoas vivendo com HIV ou AIDS, o AIDS Committee of Toronto (ACT) já ofereceu serviços no idioma por ter recebido apoio financeiro específico da Prefeitura de Toronto. Rui Pires, Coordenador de Educação para Homens Gays do ACT, mencionou que a instituição conseguiu ter programas com portugueses, brasileiros e angolanos. “Tudo ficou mais custoso para as organizações quando os subsídios acabaram, impactando no engajamento comunitário e manutenção dos projetos. Várias instituições tiveram que encerrar os programas em português”, lembra Rui. O ACT ainda mantém profissionais falantes do idioma na sua equipe.

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