Às favas com os escrúpulos!

Colocando interesses pessoais acima de tudo e de todos, alguns brasileiros vão além até do anarquismo

Estrago patrimonial no prédio do Congresso Nacional, invadido na tarde do dia 8 de janeiro de 2023, por manifestantes bolsonaristas. Foto: Jefferson Rudy_Agência Senado.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

Parte dos brasileiros parecem ter perdido os escrúpulos, não tendo mais limites para nada. Não tiveram sequer o escrúpulo de avisar aos demais brasileiros sobre tomarem essa atitude. Colocando seus interesses pessoais acima de tudo e de todos (já ouvi essa frase em algum lugar), vão além até do anarquismo, em esquema de terra arrasada. Os escrúpulos, presentes até no submundo ou em situação de guerra, foram simplesmente abandonados. Não duvido, a esta altura, até de furarem a fila no bandejão do pavilhão de alta periculosidade da Papuda, sem temer consequências. Simplesmente vale tudo.

Exagero? Pois uma turba teve a ousadia de invadir e destruir tudo o que pôde dos principais prédios da República: o Congresso, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. Não foram poupados, em sua sanha golpista, os prédios que são maiores símbolos da democracia do Brasil. Na louca ideia de derrubar um governo eleito democraticamente e que havia tomado posse apenas uma semana antes, causaram danos não só a vidros e cadeiras, mas também a obras de arte e até a um relógio de Dom João VI, um presente da corte de Luís XIV da França, que sobrevivia intacto desde 1808, ao ser trazido para o Brasil. Uma réplica do original da Constituição, retirada do STF, chegou a ser exibida como troféu. Não hesitaram em causar um prejuízo de milhões de reais ao patrimônio público e, mais do que isso, ao estado democrático de direito.

Também não houve escrúpulos de 20 mil garimpeiros ao invadirem o pouco que restou de áreas indígenas no Brasil, e, pior do que isso, levarem a estes pequenos grupos, que por natureza já lutam para sobreviver, doenças e a morte pela poluição com mercúrio das águas que bebem. Atrás do ouro e da cassiterita, não tiveram um mínimo de respeito ao menos às terras dos povos originários. Ao impedirem, desumanamente, inclusive o acesso de profissionais de saúde, foi de cortar o coração ver as imagens de crianças com desnutrição grave, à beira da morte.

Os danos à Amazônia, entretanto, vão muito mais além: os últimos anos foram de desmatamento recorde, como se a floresta servisse apenas a seus interesses pessoais, podendo ser arrasada. O que era para ao menos se ter o escrúpulo de considerar um dos maiores patrimônios do Brasil e da humanidade, com diversidade única de flora e fauna, não foi poupado, apesar de os alertas sobre os danos causados à humanidade pela destruição do meio ambiente serem ininterruptos há anos.

Claro que tudo isso acontece instigado por poderosos sem o mínimo de escrúpulos. O garimpo e a devastação da Amazônia foram possíveis graças ao desmonte da fiscalização, sendo possível imaginar que havia inclusive um plano para simplesmente eliminar as comunidades indígenas. E tudo isso dentro de um projeto muito maior, onde gastos milionários em cartões corporativos com sigilo de 100 anos são o menor dos crimes. Como a população pode espelhar-se para ter escrúpulos vendo R$ 3,7 bilhões (sim, bilhões) sendo destinados a um orçamento secreto, propina correndo solta na compra de vacinas, para pastores no Ministério da Educação, na aquisição de ônibus escolares, e quando ficam impunes rachadinhas e a compra de 51 imóveis com dinheiro vivo?

O pior é que, aberta a porteira para passar a boiada (também já ouvi isso em algum lugar), é difícil recuperar o estrago. Como recolocar padrões éticos em funcionamento depois de tanta permissividade? Nem mesmo a prisão de alguns dos vândalos terroristas foi capaz de levar essa massa a um choque de realidade e a uma conscientização de que não é possível viver um mundo de “salve-se quem puder”. Por mais que não seja plenamente aplicada e haja muita impunidade, é preciso reconhecer que a Constituição existe, está em pleno funcionamento, e deve ser respeitada. Muito mais do que em um jogo de futebol, derrotas devem ser admitidas e reconhecidas como legítimas. Faz parte do jogo, há que ter humildade para isto. E destruir o estádio por isso não só não adiantará nada, como será muito pior para todos: simplesmente, não haverá mais jogo algum. É isso que se busca?

Sobre José Francisco Schuster (70 artigos)
Com quase 40 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Ao longo dos últimos 10 anos, tem produzido programas de rádio para a comunidade brasileira no Canadá, como o "Fala, Brasil" e o "Noites da CHIN - Brasil". Schuster agora comanda o programa "Fala Toronto", nos estúdios do Jornal de Toronto.

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