Nós imigrantes somos o problema?
Alexandre Dias Ramos é editor
Sinto muita vergonha – vergonha alheia, é preciso dizer – de ter de escrever uma matéria tentando explicar que a imigração não é a causa dos problemas do mundo hoje, como temos lido em muitos lugares por aí. Cada vez mais, em conversas corriqueiras, escutamos alguém culpar o afluxo de imigrantes sobre a crise econômica, de moradia ou emprego no Canadá. Ironicamente, na maioria das vezes, quem fala é uma pessoa que imigrou ou é parente de alguém que imigrou para cá, e não se dá conta de que sua posição atual foi fruto da aceitação do país e das pessoas que aqui vivem. Vale (re)lembrar: a não ser que você seja 100% indígena, todos no Canadá são filhos, netos ou bisnetos de imigrantes. Os indígenas desse país são os únicos que podem reclamar sobre a vinda de imigrantes para essas terras do norte – e motivos certamente não faltam para suas reclamações.
Em outubro de 2017, escrevi um texto no Jornal de Toronto em que disse que, mesmo se todos os refugiados no mundo fossem aceitos para imigrar para o Canadá, ainda assim o país continuaria vazio. De lá pra cá, o número de refugiados no mundo dobrou, e ainda acredito que minhas contas valem. Em países com baixa taxa de natalidade e contínuo envelhecimento, os imigrantes são a única saída para que tudo continue funcionando, e isso inclui o sistema previdenciário – para usar apenas uma referência que os economistas conseguirão se identificar.
Nós imigrantes não somos o problema, mas a solução. É claro que o sistema imigratório canadense, como o de vários países, é cheio de erros que precisam ser solucionados, não apenas na questão burocrática, mas também nos modos de análise, nos trâmites para validação de diplomas, no uso da tecnologia para diminuir o tempo de processamentos, e nos planos de estruturação para que os novos imigrantes se adaptem de forma consistente e harmoniosa na sociedade – e, nesse caso, claro, é preciso considerar a quantidade e velocidade de imigrantes aceitos em relação às estruturas criadas para recebê-los. Planejamento nunca fez mal a ninguém.
Achar que uma pessoa que imigra, sem falar ainda a língua e sem poder exercer sua profissão, é concorrente de quem já está aqui bem adaptado é bastante injusto e não corresponde à realidade dos fatos. A crise de habitação, derivada de décadas de políticas e cálculos erráticos, falta de investimento nas estruturas de bem-estar social e pesados lobbies de um punhado de construtoras também não é, convenhamos, culpa dos imigrantes.
O filósofo Vladimir Safatle lembra de uma frase de Spinoza, “para quem esconder as verdadeiras causas do povo, submetê-lo a um fluxo de informações distorcidas e esperar que ele decida bem é o cúmulo da estupidez”. Ou seja, se estamos imersos num volume enorme de informações contrárias aos imigrantes, mostrando a todo tempo que essa é a causa de todos os males de um país, teremos a tendência a agir contra esses imigrantes – ainda que, por mais absurdo que pareça, sejamos também um deles.
Inúmeras crises sociais e políticas que agravam a pobreza e a injustiça, assim como a perseguição de minorias, produzem instabilidades complexas de serem resolvidas. Em muitos casos, a consequência é a guerra. Segundo dados das Nações Unidas, há cerca de 56 conflitos armados no mundo hoje, que forçam o deslocamento de cerca de 123,2 milhões de pessoas, sendo 42,7 milhões delas refugiadas. Lembremos que, na época de nossos bisavós e avós, a Primeira e Segunda Guerras Mundiais também foram razões para que muitos imigrassem para o Brasil.
Na maioria dos casos, a família não sai de seu país de origem porque quer; geralmente é por necessidade ou esperança de uma vida melhor. Há outras motivações, claro – como estudos e até mesmo amores avassaladores –, sempre naquela vontade contraditória de construir uma realidade nova em outro lugar, mas, ao mesmo tempo, permanecer em nossa terra natal. Há quem tenha essa escolha, mas muitos outros não.

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