Superando a saudade da terra natal
Débora Corsi é administradora
Morar fora do país nativo envolve um planejamento cuidadoso. Mesmo que todo o processo esteja concluído, a mudança em si pode ser um desafio. Em muitos casos, a pessoa se muda sozinha, em busca de um emprego melhor e de um local seguro para se estabelecer antes de trazer a família. No entanto, um problema surge nesse trajeto: a saudade.
Como superar a falta do abraço dos pais? Como se contentar com o beijo virtual do cônjuge que está do outro lado da tela do smartphone? Como aliviar a angústia de não ter os amigos mais próximos nos churrascos de fim de semana? Como não chorar ao ver o filho dizendo que não aguenta mais a ausência? Essas são perguntas sem respostas fáceis, pois somos sensíveis a tudo isso. A tecnologia trouxe muitos avanços para nossas vidas, mas nunca conseguirá substituir uma pessoa amada. Ela nos aproxima de quem está longe através das redes sociais e mensagens de WhatsApp, mas não pode fazer um teletransporte para estarmos perto de quem desejamos, mesmo que seja por apenas cinco minutos.
Um filme que ilustra bem essa ideia é The Fly [A Mosca], um filme de ficção científica lançado em 1986, dirigido por David Cronenberg. A trama gira em torno de Seth Brundle (interpretado por Jeff Goldblum), um cientista brilhante que desenvolve uma máquina de teletransporte. No filme, a experiência é frustrada, mas o cerne da abordagem é o desejo de transportar uma pessoa para outro local, o que seria maravilhoso. Se hoje isso fosse possível, certamente aliviaria muito a saudade. No entanto, como essa máquina não existe, precisamos utilizar os recursos disponíveis neste século, como, por exemplo, as chamadas de vídeo.
Retornar ao país de origem não é uma opção, especialmente porque o planejamento da saída foi concluído, e o retorno nem sempre é simples. Em determinadas situações, pode surgir a chamada “síndrome do regresso”. Concebido pelo neuropsiquiatra Dr. Décio Nakagawa, esse termo descreve o processo de readaptação que muitos enfrentam ao retornar ao seu país de origem. A síndrome do regresso é mais comum do que se imagina. Ela se manifesta quando uma pessoa volta para casa e, em poucos dias, percebe que a saudade se limita à família, e não à cultura, aos costumes, à casa ou ao ambiente. Além disso, a perda de privacidade pode representar um desafio significativo, exigindo uma nova adaptação que muitos não conseguem suportar. Assim, a sensação de reviver o passado pode se tornar mais difícil do que viver em um país estrangeiro, onde tudo é novidade e repleto de possibilidades. Assim, a alegria inicial passa rápido e logo surge o desejo de planejar uma nova saída do país.
Podemos concluir que a realidade é angustiante – até porque, a máquina de teletransporte não existe – e regressar não está nos planos. Contudo, a saudade continua “rasgando” o coração. O que podemos fazer para atenuar isso? Algumas dicas podem ajudar quem está passando por esse desconforto:
• Reconheça seus sentimentos: Entenda que a saudade é um sentimento comum; você não está sozinho, lembre-se de que não foi esquecido pelos amigos e familiares. Trazer essa verdade à mente alivia o peso. Atravessar os mares não apaga o amor das pessoas por nós.
• Evite músicas nostálgicas: Não coloque músicas que trazem lembranças dos dias vividos; isso pode aumentar a angústia. Procure ouvir canções que elevem sua energia. Dançar alivia o estresse e promove satisfação.
• Busque lazer local: Encontre atividades para fazer no país, como cinema, teatro, feiras ou parques. Quando a saudade estiver mais forte, refugie-se nesses lugares; isso ajudará a mente a focar em outras coisas, substituindo a tristeza pelo desejo de aproveitar o momento.
• Faça novas amizades: Não é fácil fazer amigos estrangeiros, mas não perca a oportunidade de conhecer alguém local para conversas agradáveis. Também por isso, mantenha seu inglês fluente.
• Participe da comunidade brasileira: Conecte-se com brasileiros para compartilhar experiências e conversar sobre coisas que apenas vocês entendem. Se possível, marquem um almoço juntos, em um restaurante com um custo acessível.
• Realize chamadas de vídeo alegres: Faça chamadas de vídeo, mas evite transformá-las em “velórios”. Compartilhe histórias engraçadas vividas no novo país ou relembre momentos hilários com a pessoa para quem está ligando. O sorriso envia uma mensagem ao cérebro de que está tudo bem.
• Pratique atividades físicas: Mesmo que seja uma caminhada, o exercício libera serotonina, popularmente conhecida como o “hormônio da felicidade”. Lembre-se de evitar músicas depressivas enquanto se exercita.
• Experimente a meditação: A meditação pode ajudar a direcionar sua mente para áreas de alívio, bem-estar, segurança e positividade. Ela reduz o estresse e controla a ansiedade.
É claro que eliminar totalmente a saudade é impossível, mas é possível amenizá-la o suficiente para que se consiga permanecer num país longe de sua terra natal.

Excelente reportagens!! Parabéns pelo conteúdo!! Amo o Canadá, por isso ler esse jornal é muito bom!!