José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto
Um assunto que passa batido para os imigrantes é o custo que tem a imigração. Na ânsia da mudança para outro país, o custo que isso acarreta acaba sendo relegado para segundo plano, ou até entra-se em um esquema “custe o que custar”, inclusive custos não-monetários, como perder a estabilidade no serviço público. A educação financeira, tema da coluna anterior, porém, leva-nos a evitar despesas de maneira emocional, com uma prévia avaliação de custo e benefício, não só evitando endividamentos descontrolados, mas buscando uma melhoria patrimonial. Alguém faz este cálculo na hora de imigrar? Creio que ninguém. Portanto, vamos enfrentar este tema que é varrido para debaixo do tapete.
Primeiramente, vamos lembrar que são diversos os motivos que levam à imigração. Um dos mais citados é a segurança, especialmente para cariocas e paulistas. Um amigo decidiu imigrar quando a empresa onde trabalhava foi assaltada e lhe colocaram um revólver apontado para sua cabeça; outro quando, falando no celular ao sair do banco, não percebeu que estavam lhe assaltando, irritando o bandido, que atirou. A bala que lhe atravessou o corpo e custou seis meses de hospitalização. Outro fator para a imigração é a tranquilidade que a comunidade LGBT tem no Canadá, sendo possível vestir-se como quiser e sair de mãos dadas sem sobressaltos.
Contudo, o motivo preponderante para imigração certamente é a busca de melhores condições econômicas do que no Brasil. Mas é 100% certo que a imigração fará melhorar de vida, já que o Canadá está no G7? É preciso calcular na ponta do lápis.
O primeiro erro grave que se pode cometer ao comparar é converter dólares canadenses para reais – e reportagens fazem isso rotineiramente. Tecnicamente não é fake news, mas cria uma ilusão principalmente ao se converter salários sem converter junto o custo de vida. Tenho restrições inclusive ao índice Big Mac, usado por economistas para, através do preço do hamburguer, estimar o poder de compra. A falha já se revela no primeiro item que vamos analisar:
Moradia
O preço da moradia no Canadá é a principal dor-de-cabeça do imigrante. Isso porque milionários estrangeiros compram imóveis à vista no Canadá, por ser mais seguro do que deixar o dinheiro no país onde vivem. Isso inflacionou tanto o mercado que o governo canadense teve até que criar um imposto para compradores estrangeiros para evitar uma bolha imobiliária. Mesmo assim, o aluguel de um apartamento de um quarto ultrapassa facilmente os 2 mil dólares mensais. Para o imigrante, que traz reais que viram farelo ao serem convertidos em dólares, é um choque. E a bem de não existirem fiadores no Canadá, se paga o aluguel adiantado e ainda se deixa um mês de depósito. Ou seja, antes de você colocar os pés, já pagou dois meses de aluguel.
Da mesma maneira, o preço médio de um imóvel em Toronto supera um milhão de dólares. É isso mesmo, você não leu errado. Ou seja, a casa própria é um sonho muito mais distante no Canadá, mesmo com financiamentos de muitos e muitos anos. Já a taxa de condomínio para apartamentos também é alta, uma vez que é normal os edifícios terem em seu fundo de reserva mais de um milhão de dólares para qualquer eventualidade.
Mobiliar a casa
Nos emocionamos ao ver reportagens sobre família que perderam tudo o que tinham em suas casas com enchentes. Já o imigrante “perde” tudo o que tem voluntariamente, chegando ao Canadá com sua vida resumida em uma mala de 23kg – muitos ainda pegaram o tempo em que eram permitidas duas malas de 32kg cada, mas isso é passado. Ao chegar, o imigrante não tem um garfo, uma toalha, um travesseiro. Nada. No Brasil, quando se fala em juntar os trapos, se leva um tempo até que se possa comprar o mínimo necessário para a casa. Já o imigrante tem que comprar tudo para ontem, pois não há como dormir no chão. Ainda bem que aqui fogão, geladeira e closets fazem parte das casas, mas a lista do que comprar mesmo assim é interminável. Morando no Brasil, quem joga fora tudo o que tem e recomeça do zero?
Alimentação
Sabe quanto é um rodízio em churrascaria no Canadá? No almoço, 50 contos, no jantar, 75! Mais 10 dólares uma long neck, mais os 13% de impostos (que aqui sempre são por fora) e mais o mínimo de 15% de gorjeta! Assim, um casal no almoço gasta 200 dólares facinho! Ou seja, você vai só no aniversário – e olhe lá.
Seguro do carro
No Canadá, o seguro total para veículos é obrigatório, e a aceitação de sua experiência como motorista no Brasil não é fácil. Assim, o seguro total sairá quase o mesmo ou até mais do que a prestação do carro, em uma conta muito salgada. Incrível que no Brasil, com muito mais roubos de carros, seguro total não tenha um preço assustador.
Educação
Como o Canadá reconhece basicamente suas próprias instituições de ensino e, no máximo, as dos Estados Unidos, você acaba voltando aos bancos escolares para ter mais chances no mercado de trabalho. Só que aqui os cursos superiores são todos pagos, e caríssimos. Tem crédito educativo, é verdade, mas é uma dívida que se leva anos pagando. É esquisito pagar – caro – outra vez para aprender o que você, na maioria, já sabe. Ou talvez tenha feito no Brasil uma universidade pública, sem pagar nada.
Férias
Como já mencionamos na coluna “Imigrar e deixar tudo para trás”, o Brasil vira o principal destino de férias do imigrante, para poder rever a família e os amigos. Quando que no Brasil você incluiria viagem ao exterior para a família inteira todas as férias como parte do orçamento? Seria considerado loucura, e aqui não é muito diferente. Isso porque, passando a régua na coluna da despesa, vamos ao outro lado da moeda.
Ah, praia? Vai pra Cuba, é a mais próxima viável! Miami é caro até para canadenses. Mais: acha caro pagar R$ 257,25 por um passaporte? Nos consulados do Brasil no Canadá, ele sai por 180 dólares!
E a receita?
Os salários no Canadá não são astronômicos, como se possa imaginar. E mais uma vez, jamais os converta para reais. E, sendo um país com mais justiça social, não há a elasticidade salarial do Brasil. Conseguir ganhar dois salários-mínimos significa que você está em um bom emprego. Acima disso, é raridade.
O Imposto de Renda dá a sua mordida e não há os penduricalhos com que nos acostumamos no Brasil: não há 13º salário (equilibrar as contas no Natal é um sufoco), não há terço de férias, não há vale-transporte (e uma passagem é CAD$ 3.25 dólares) nem vale-alimentação (leve a marmita de casa para o trabalho). Saudades da CLT, mesmo do que restou dela.
Resumindo, quem vivia em empregos de sobrevivência no Brasil e chegou no Canadá sabe-se lá como, faz muita propaganda, pois emprego de sobrevivência aqui permite condições de vida melhores do que tinha. Agora, para quem era classe média no Brasil, após a oportunidade de fazer um curso superior e trabalhar em sua profissão, recomeçar do zero no Canadá, normalmente fora da profissão, é uma aventura e tanto. E, na ponta do lápis, a conta fechou? Sobrou para gastar na pipoca do cinema?

