Alexandre Dias Ramos é editor
Num mundo onde tudo é comercializável, quantificável e patrocinável, muito se admira que, numa noite qualquer, a menina tenha pedido ao pai que lhe comprasse um poeta. Na loja, o “pai apontou para o poeta que fungava e não tinha patrocínio nas roupas e perguntou se aquele exemplar era subversivo, que é a característica mais temida nos poetas”; no que o vendedor respondeu: “Está abaixo dos dois por cento. É sempre necessário serem um pouco subversivos ou a qualidade poética baixa demasiado e não gera lucro, ninguém compra, acabam preteridos a bailarinos ou hamsters”.
Seu quartinho debaixo da escada era diminuto, mas o poeta estava feliz por ter agora um lar. Ninguém na casa entendia o que ele dizia – tudo muito irracional –, mas, como todo bichinho de estimação, o poeta acabava por ser uma boa distração (e um constante incômodo). De repente as coisas em casa mudaram e as indecifráveis metáforas do poeta passaram a ser interpretadas como mentiras. Palavras e frases com sentidos descabidos e desconectados dos fatos mensuráveis. Um perigo!
Mas, também sabemos, do poder que as palavras têm; e, pouco a pouco, aquela frase escrita na parede do quartinho acaba por revelar algo cada vez mais instigante:
“Como é que o mar, tão grande, cabe numa janela tão pequena?”
O livro Vamos comprar um poeta, de Afonso Cruz, transforma a ficção em realidade, e a realidade – já absurda por demais – em ficção. É incrível a capacidade que um pequeno livro como este tem para nos mostrar, do lado de cá ou de lá da distopia, que, ao fim e ao cabo, a poesia sempre vence.
Francamente…

