Gui Freitas é colunista do Jornal de Toronto
No Canadá, muito se tem falado e valorizado o papel dos “frontline workers”, os profissionais de saúde que estão na linha de frente no combate à pandemia do Covid-19. Infelizmente, no Brasil, não vemos essa mesma atitude. Há 18 meses eles estão sem descanso, lidando com angústias profissionais, fazendo escolhas difíceis, sentindo a limitação de sua condição humana, em um sistema de saúde que já era sobrecarregado, muitas vezes com salários atrasados e vivendo as próprias crises pessoais dessa pandemia.
Na faculdade é ensinado a praticar o cuidado usando as melhores práticas estudadas, proporcionando um olhar integral e humano ao paciente, respeitando suas crenças e seus limites. Mas quem cuida do cuidador? Quem está lá para reconhecer nele um ser humano, que também está cansado, inseguro e com medo? Que também está experienciando suas perdas pessoais? Qual tempo ele tem disponível para cuidar de si, com os serviços médicos exigindo deles horas-extras, a família requisitando o membro referência no assunto para resolver todas as questões de todos os seus integrantes, do agendamento de uma consulta à dispensação da medicação. E ainda se preocupar em quem vai acompanhar a aula online do filho enquanto ele trabalha, ou se ele pode estar levando a doença para seus pais idosos. Perder todos os dias um novo paciente, e muitas vezes saber que fez o melhor que podia dentro das condições que tinha, mas não dentro de tudo o que poderia ter sido feito. Se sentir impotente dentro de sua própria limitação humana.
O profissional de saúde precisa ser cuidado. É urgente que ele seja visto com amor e empatia, assim como cada paciente quer ser visto. Compreender que ele é humano, que também está se deparando com uma realidade dura e exaustiva. Construir uma rede de apoio tanto para as coisas práticas e operacionais, como para a demanda emocional que essa pandemia impõe. Ele também precisa de terapia, de massagem, de autocuidado. Precisa se olhar no espelho e não enxergar apenas as olheiras e as marcas dos equipamentos de proteção. Precisa de espaço para chorar as tristezas e para rir das coisas simples da vida, e se sentir respeitado como indivíduo.
Um ano e meio após o início da pandemia, começamos a sentir uma centelha de esperança que o fim pode chegar. No Canadá e em algumas outras partes do mundo a vacinação está progredindo, o número de casos novos e a mortalidade diminuindo, o comércio reiniciando sua abertura aos poucos. As pessoas estão se readaptando e se reconstruindo após esse período. Mas não podemos acreditar que tudo acabou. Temos ainda um caminho longo pela frente cuidando daqueles que não deixaram de cuidar de todos durante esse período.

