Cristiano de Oliveira é colunista do Jornal de Toronto
Eis que chega o outono, esse indesejável. Que coisa, no Brasil ninguém nem sabia o que era outono. Tem churrasco de janeiro a dezembro, faz calor depois faz frio, e ao menos em BH, a gente só nota mudança de estação quando os ipês florescem. Só que eles florescem no inverno, e não na primavera como ensinam as historinhas que o hemisfério norte empurra pra gente. E visto que hoje em dia cai tempestade de verão em qualquer época do ano, realmente não há mais nada pra nos dar indícios de mudança de estação, a não ser quando as lojas anunciam a coleção primavera-verão – mas essas também não vão durar, pois a paixão do brasileiro por gringo desconhece limites, e em breve seu magnífico inglês rebatizará tais coleções como Praimavera-Veration. Mas essa é uma outra história, voltemos a Toronto, onde o fim do nosso Veration dói.
Aqui o outono é o famoso sinal do recreio: ele chega avisando que acabou a farra. Chega de bagunça, para de puxar a calça do coleguinha no meio do povo, vá farmar aura na casa do capeta, guarde esse baralho que acabou o Truco – todo mundo de volta pra aula. Uma longa e dolorosa marcha de volta à sala de aula se inicia em setembro e terminará em dezembro, quando desabamos nossos corpos nas cadeirinhas. Se víamos pessoas frente a frente no recreio do verão, agora voltamos a ver somente suas nucas à nossa frente. De frente pra nós mesmo, nessa terrível sala de aula, só restará a figura professoral do trabalho, falando coisas que nosso déficit de atenção tratará de transformar na professora do Snoopy em alguns minutos, enquanto a cabeça vaga por pensamentos mais prazerosos. Mas não nos esqueçamos da martirizante jornada que nos levou até ali, o outono, esse disciplinário maligno.
O frio ainda é tolerável, mas o sol passa a se pôr no horário normal. É tarde demais pra isso, quem quer saber de normalidade a essa altura? Pra que tanta tradição, tantos costumes? Agora a gente já se acostumou com sol até as 9 da noite, e portanto queremos mesmo é a anarquia da luz. Na adolescência a gente se animava todo para a noite em que o horário de verão acabava, pois ela durava uma hora a mais, ou seja, mais uma hora de farra pelas ruas. Mas o tempo é cruel e hoje essa hora extra é usada pra ver televisão, e ela tem utilidade zero, porque a gente vai dormir no meio do filme como sempre. Estava melhor com luz do dia.
E a todos que passam por momentos difíceis na vida, foi um prazer conhecê-los e até mais, porque o outono não vai perdoar essa fraqueza. É um período ótimo pra infernizar a cabeça. Você busca coisa pra fazer, vai aos eventos, mas só aquela coisa de sentir frio do lado de fora e morrer de calor do lado de dentro já mostra que tem alguma coisa errada. Você busca apoio nos amigos, mas a nossa rede de apoio é composta de seres humanos que também buscam apoio. Todos igualmente buscando preencher o tempo e afastar a depressão. Dizem que o que a vida quer da gente é coragem: bom, a vida eu não sei porque não a conheço direito, mas o que o povo quer da gente é distância, a menos que você tenha sabor Fluoxetina.
Eis aí o outono nos informando que mais um ano subiu no telhado, representado perfeitamente pelas suas folhas secas caindo ao chão: por mais que seja duro catá-las, ainda é possível apreciar seu charme.
Adeus, cinco letras que choram.

