Carlos Rogério Duarte é escritor e editor
Da série “Crônica da Copa”
Parece que a Copa do Mundo acabou há meses, mas faz só uma semana. Dez dias atrás estávamos ocupados em forjar argumentos consistentes para torcer para a Argentina – a irmandade sul-americana e a solidariedade de nações colonizadas – ou contra ela: o racismo dos torcedores, o silêncio dos jogadores. Nunca a história espanhola lhe custou tanto: o sangue que correu das nossas veias abertas, os massacres que Bartolomeu de Las Casas registrou, um verdadeiro holocausto acontecido na América Latina.
Talvez essa batalha de bons motivos para torcer para um finalista, ou contra um deles, sem se afeiçoar pelo outro, tenha sido mais épica do que a própria final – jogo besta, sem a energia que se viu na disputa pelo terceiro lugar, com nada menos do que dez gols, choro e ranger de dentes. Se é pra levantar defuntos históricos, França e Inglaterra têm muitos – enfrentaram-se em muitas guerras, uma delas até de cem anos.
Assisti aos dois jogos com a postura salomônica e serena de meu pai nas partidas que não envolviam nosso time, a Portuguesa de Desportos, nem nossa seleção, a brasileira. Observei e julguei muito, fiz-me sabedor dos conceitos do “bom futebol” e portador da tradição acumulada no Canindé, no Pacaembu e no Morumbi. Declarei-me fã do esporte, defensor do jogo de alta performance e crítico da mercantilização de tudo e de todos, sobretudo do grotesco espetáculo da final.
Abre um grande parêntese.
Num recôndito meu mora o adolescente inconformado que escreveu algumas linhas aqui neste Jornal de Toronto. Aquela minha versão que quer acreditar no futebol-arte, futebol-poesia, jogado pela seleção de 70 e teorizado por ninguém menos do que Pier Paolo Pasolini.
Eu me lembro: tinha treze anos e esboçara um projeto de país. O futebol é nosso talento, nosso principal produto de exportação, mais que o café, o tabaco e o boi? Então poderíamos estruturar o país ao redor dessa dádiva. Cada escola de cidadezinha teria seu pequeno estádio, que formaria os craques em ligas municipais, depois regionais, então estaduais – meninos e meninas receberiam a mesma atenção e os mesmos recursos. Nesse meu Brasil perfeito, pernas-de-pau como eu poderiam ser aprendizes de repórteres, estilistas, fisioterapeutas, planejadores de eventos, porque essas escolas-modelo serviriam de celeiro de profissões. Nem todos somos grandes jogadores, mas poderíamos desenvolver outras artes a partir do futebol.
Imaginei a adolescente que quer ser médica compondo a equipe juvenil de assistência às jogadoras e jogadores das pequenas seleções. Um garoto como eu, interessado na história do futebol, poderia inclinar-se à carreira acadêmica desde cedo, treinando a escrita e a pesquisa. A moçada das exatas planejaria a logística dos jogos, formularia planilhas de processamento dos dados e ensaiaria projetos de engenharia para ampliar o centro de treinamento e o pequeno estádio.
Sendo o futebol o nosso dom, ele se tornaria o núcleo do convívio nacional. O time da escola poderia ser o vetor de luta contra o racismo e contra a exploração infantil – um verdadeiro centro comunitário, que poderia oferecer capital cultural a quem não teve a chance de tê-lo na família. A liga nacional de futebol faria jovens circularem pelo Brasil todo e terem noção do tamanho e da diversidade do país. As universidades receberiam jovens já muito experimentados em contribuição às comunidades onde cresceram – e daí à ideia de se formar para o Brasil seria um passo.
A utopia, no melhor significado dessa palavra: como sentido a trilhar, como projeto coletivo, como integração, não como projeto de dizimação colonial da natureza e dos povos para acúmulo de riqueza.
Transcender a utopia para além do estádio e deixá-la encantar a realidade.
Fecha o grande parêntese.
No intervalo estendido da final, assistimos na sala de estar à suposta integração mundial, de nações, classes e raças. É uma utopia apocalíptica, o reinado do possível, o mundo encantado da propaganda: homens ocos, mas muito vivos, falam de além-túmulo, e ídolos tomam banho de sol em balneários caros, patrocinados por bets. É a festa, a festa, a festa.

