Carlos Rogério Duarte é escritor e editor
Da série “Crônica da Copa”
Recebo uma mensagem pelo aplicativo universal de troca de bobagens: “Mas afinal, isso que você escreve nas crônicas é verdade ou mentira?”. Não sei bem o que responder. Estou na frente da tevê, assistindo ao insosso empate de Portugal com a Colômbia. Zero a zero, o mais frustrante dos placares, mas Cristiano Ronaldo segue encantando o mundo, aos quarenta e um anos, idade inverossímil para quem corre noventa minutos atrás da bola.
Fico torcendo para Portugal, país de origem de meu avô paterno. Parece mentira, mas é verdade: os portugueses têm mais jornais esportivos do que os brasileiros. Amor ao futebol não é exclusividade nossa. Meu pai sempre comentava, saudoso, como não poderia deixar de ser, que Eusébio era quase tão talentoso quanto Pelé, na Copa de 66. Desde então Portugal tem batalhado para ser no futebol o que foi nas navegações: um país diminuto, de pouca gente, que conquistará o mundo.
“Não torço para países colonizadores!”, declarei aos amigos colombianos, num sábado de terrível calor carioca, em pleno Canadá – inacreditável. Então é preciso eleger outra seleção para torcer. Sim, o Cabo Verde de Cesária Évora: terra dos Flagelados do Vento Leste, dos meus tempos de graduação. Cabe bem, porque os caboverdianos, além de exímios poetas, poderão desclassificar os argentinos, na próxima sexta. Improvável, mas ainda possível, porque o futebol é uma caixinha de surpresas. Em campo, todos os revides são possíveis.
Veja: a Alemanha foi desclassificada pelo Paraguai, que um dia foi destroçado pela Inglaterra. Não se comente o alinhamento brasileiro nesse conflito: brutalidade esquecida é outra habilidade nacional. Já a Laranja Mecânica da Holanda apanhou de Marrocos – região, aliás, que meus ancestrais castigaram muito, em Ceuta e Alcácer-Quibir, onde desapareceu D. Sebastião. Talvez ele não tenha morrido, insistia meu avô, ao contrário da esperança, a última a encontrar a indesejada das gentes.
É de esperança que se trata? Então toma: na rede social universal de imagens ocas, alguém posta um vídeo de estrangeiros desvairados com um gol do Brasil e declara que nosso país exporta esperança e é o farol do mundo. Não sei se o vídeo é verdadeiro, nem se ainda existe esperança nas nossas terras, ou em quaisquer outras – e menos ainda se somos farol para alguém. A máquina de espetáculo esportivo me parece mais dirigida às rochas do Cabo da Boa Esperança. Lanço mão desse outro rochedo para evocar a maior das ficções: o monstrengo de pedra e terra avisou que os homens não ganham da máquina nem ela ganha deles nesta luta. Há empate – o mais puro suco ficcional luso-brasileiro que eu pude imaginar.
Mas esse Adamastor risonho, cheio de dentes, é uma montanha que se projeta no fim do mar e não fala. Ali morreu Bartolomeu, rima sem solução, fabulação de poetas sem olho ou de mil personalidades. Gente muito marinheira, que levou desgraça à Índia, à China, ao Japão: cá estamos de volta à Copa, que o mundo é grande, mas é redondo, então dá voltas. Na minha economia pessoal de torcida, o Japão tem grande importância. Nem todo mundo sabe conter o mundo em três versos.
Mas a seleção brasileira venceu. Dois a um, final dramático, virada no último minuto, confirmando todas as apostas. Circulou nas redes, que não têm mais verdade do que esta crônica, que pelo menos um jogador nosso, e um francês, não aceitam fazer propaganda de bet. Ninguém acreditou, nem eu, porque a realidade é outra: todos nós cantamos de mão no peito um hino sem pátria, intitulado “Pagando bem, que mal tem?”.
Tudo começa onde terminou: uma das minhas muitas personalidades está plantada na frente da tevê, torcendo para que a Costa do Marfim massacre a Noruega; e gritarei para que a República Democrática do Congo esmague a Inglaterra – porque essas épicas revanches têm tanta verdade quanto uma mensagem de náufrago na garrafa, à espera dum sebastião que nos salve a todos desta barafunda sem metáfora.

