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De céticos, conservadores e pios

Carlos Rogério Duarte é escritor e editor

Da série “Crônica da Copa

Pinheiro Lima, o cético dos céticos, amigo de muitos anos, leu minha primeira crônica sobre a Copa e respondeu com uma mensagem seca: “Futebol é dinheiro. E só”.

Mas, como bom sonhador, quero acreditar em outra coisa, em craque menina ou menino fazendo o imponderável com a bola, sintetizando o Brasil na estética do drible, que nada tem a ver com grana, é um troço lírico. Pasolini me explicou, quando eu era moleque: o calculismo racional e prosaico das seleções europeias jamais venceria a poesia do futebol brasileiro. Mas Pinheiro Lima, terrível fausto nacional, declara: “Essa poesia está morrendo, se já não nasceu morta. Futebol é dinheiro, e só”.

Continuei procurando porque sou teimoso: se o futebol acabar, é todo um passado meu que se esvai, sem sentido. Orgulhoso e saudosista, assinei o canal de esportes, coisa de família: meu pai frequentava o estádio toda quarta e domingo para não perder qualquer iminência de jogo bom. “Era um otimista”, sussurra o Pinheiro Lima. Espanto esse cassandra. E festejo porque, na minha tevê, a seleção canadense sacolou o Qatar por seis a zero, placar histórico, jogão. A Inglaterra meteu quatro numa Croácia renhida, que devolveu dois, bonito de ver. A Espanha fez outros quatro na Arábia Saudita, que beleza. Mas tudo me irrita nas transmissões: nos estádios, o apito inicial deu lugar um narrador grotesco, que faz contagem regressiva. “É a Máquina do Mundo”, Pinheiro Lima insiste, metendo Drummond onde não é chamado, “o narrador onipresente converte futebol em Super Bowl, bom pra faturar”.

Então me maltratei, porque quero ter razão, como sói acontecer com quem se obriga a gostar de alguém antes de gostar de si mesmo (o maior dos clichês não é obrigatoriamente mentiroso). Depois de um jogo, decidi assistir à entrevista do artilheiro, que declarou que deus estava no comando – e desliguei imediatamente. Não me entendam mal: respeito todos os credos – todos, sem exceção –, mas repudio essa investida religiosa em todos os âmbitos. Evoco Nelson Rodrigues, cronista-mor do futebol, para perder o medo e escrever, conservador: sou do tempo em que religião era questão de foro íntimo. Você tem a sua, eu a minha, ou não temos, e tudo bem: cada um faz do seu domingo, das suas crenças e da sua vida o que quiser. Não dá pra meter deus na vida pública; política, futebol, trabalho – esses espaços têm de ser laicos, todos sabemos disso desde o século dezoito.

Na sexta-feira, jogo do Brasil. Os leitores assistiram, Andrea e eu assistimos – 3×0 pra nós, mas eu não consegui sentir nada, nada. Mesmo com o placar avantajado – oh, o sagrado vocabulário da testosterona futebolística –, o jogo era mais chato que a contagem regressiva do mefistofélico narrador, mais entediante do que os reclames nas pausas para hidratação. Meti o fone em um dos ouvidos pra ouvir música e pus-me a ler Coração, cabeça, estômago, de Camilo Castelo Branco – e me diverti bem mais. Um terrível cético se apossou de mim, é fato. Culpa de Pinheiro Lima.

O drible poético que mora na minha cabeça morreu. E não basta meu amigo me atazanando, agora tem o professor da UnB, Luís Felipe Miguel, que eu acompanho no Substack, dizendo o que muita gente não tem coragem de dizer: fazer golaço não livra a cara de quem é garoto-propaganda de bet; jogar bem não dá isenção no imposto de renda. Pinheiro Lima me olha severíssimo, à maneira de irmão mais velho: “Eu te avisei, Carlos Rogério”.

Então caio em mim, e abraço os céticos. Pasolini teria nojo do futebol-mercadoria sem metáfora. Essa máquina de fazer dinheiro fácil se abriu a Drummond, mas ele não se entregou a ela. Nelson Rodrigues, que era grosso na política, me ensinou a não ter medo de escrever a seguinte verdade: Pinheiro Lima, que jamais saiu do meu lado, mesmo quando mais ninguém queria a minha companhia, provavelmente tem razão.

Mas eu ainda insisto em acreditar na poesia.

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