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De mangas e sombras

Foto: Luhai Feng.

Carlos Rogério Duarte é editor

– Hoje vou comer manga.

Pus as botas quentes e isolantes que comprara quinze dias antes, cobri-me de luvas, ceroulas locais de ferver as pernas, gorro quentíssimo da loja de cacarecos de poucos dólares e o casacão que resiste a menos quarenta. Sair de casa naqueles primeiros meses era quase uma operação de guerra estratégica para não deixar congelar alguma parte esquecida do corpo. Nunca soube que era possível sentir frio nos fundilhos, nem imaginei que era preciso cobrir o nariz para não me resfriar com o ar congelado.

Mas, naquele dia, eu estava decidido a comer manga e subverter todo o ártico. Da manga rosa eu tinha lembranças que não queria deixar apagar – eu tinha o sol em mim. Uma tarde de verão em Santos, com uma namoradinha dos treze ou quatorze anos, caminhando no calçadão, e a gente se lambuzando de uma fruta comprada no carrinho de rua mesmo, rindo de tudo e nada, do José Menino até à Ponta da Praia. Uma manhã quente, bravíssima, de exílio na Ilha de Itaparica, aos vinte e poucos anos, depois de dois mil quilômetros de estrada, à procura de um Brasil que eu desconhecia, chupando a manga que pingava de madura. Comecinhos de manhã, já quase aos quarenta, caminhando da Glória até o Botafogo, e degustando de água de coco e manga, bem na frente do Pão de Açúcar, nos anos em que morava mais no Rio de Janeiro do que em São Paulo.

Agora pisava chão neve e guardava o calor em mim. A memória me enganou, porque imaginei que entraria no supermercado tomado do aroma de manga amadurecendo-quase-estragando, mas não: cheiro protocolar de mercado. Fui até a gôndola das frutas e encontrei-a tímida, menor, quase inodora. Manga de exportação deve ser assim mesmo, mais ressecada para suportar a viagem. O segurança me olhou feio, porque antes de escolher fiquei farejando para ver se alguma fruta me trazia corpo e mar à memória. Quase nada, uma aragem surda, fria mesmo – só uma cintilação do sol que eu queria constelar.

Foi então que tive a revelação, desculpem escrever assim, querendo soar extático – mas o que não havia aconteceu, não minto. Completei cinquenta anos naquele exato minuto. A cabeça dura e quente, inegociável, foi se abrindo, se expandindo, e deu lugar à mente elástica dos mais velhos, até que declarei: sempre haverá cheiro e sabor, basta abrir os olhos.

Na volta tanta neve caindo e caída emudecia os ruídos da cidade. Antes de partir, me alertaram que era silêncio demais, mas eu gostei: tanta barulheira, tanta brincadeira, tanta ilusão, tanto sofrimento, tudo tinha perdido a graça, e eu estava mesmo muito cansado. A vida inteira temi as sombras, mas agora elas não assustavam mais, eu estava até gostando daquele dia só de ocasos, um esfumato – era dia e não era. Tinha viajado tanto para chegar ao mesmo lugar de conclusões, este mundão de infinitos conheço bem, branco sobre branco.

Em casa, cortei a manga do meu jeito. O mel quente da brisa estava lá ainda, mas agora falou alto um corte áspero, de língua diferente, bárbara – sabor maduro, menos pronunciado, de terra dura, nova. Eu tinha em mim o sol e a sombra, e um futuro enorme pela frente.

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