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Pra não dizer que só falei das flores

Foto: Brenton Reimer.

Cristiano de Oliveira é colunista do Jornal de Toronto

Ao fim da aula de kung fu do Mestre Robson pra adolescentes chatos, sempre havia o momento da meditação, e lá aprendi a frase: “Para ter borboletas, é preciso tolerar as lagartas”. Pois para que o verão entre esvoaçante pela sua janela trazendo cerveja e churrasco, você precisa primeiro deixar que o inverno rasteje com milhões de patinhas geladas por cima de você e faça um casulo no meio da sua sala. A lagartona gelada, notívaga e solitária me puxou pra dentro desse casulo, e é de lá que eu falo ao vivo com imagens exclusivas.

E por que falar de inverno na edição de primavera? Porque quando a gente prepara a edição de inverno, o inverno ainda não dói. É época de confraternização, de friozinho até gostoso pra aliviar o calorão do verão, a expectativa de passar o Natal com a família… Pra falar do inverno com propriedade, é preciso estar com dor nas costas de tanto limpar neve. Tem que ser naquele período do ano em que freio de carro é igual Plano Collor: pode apertar o quanto for, que a situação só fica cada vez mais fora de controle.

O frio é o menor dos problemas. Pra mim, mais sofrida é a falta de luz do dia. O fato de sair de casa pra trabalhar antes do sol nascer, e voltar com ele já se escondendo. Após voltar do Brasil no meio de janeiro, eu passei uma semana vendo a sala de casa só no escuro. Uma semana com a plena consciência de que havia um Sonho de Valsa ali em algum lugar, mas que eu não conseguia ver. Ora direis, “uai Cristiano, acende a luz”! Ora vos lasqueis: e sala de estar no Canadá por acaso tem luz? Isso o Facebook não te mostra! Ele inventa que o Canadá tá contratando; que em Quebec é só chegar e você ganha o combo emprego + aula de francês + um beijo na boca; e que eles estão desesperados pra contratar o brasileiro sabidão que jura que no inverno tudo funciona debaixo da terra. Tudo isso está nas redes sociais, possibilitando que pessoas que não sabem absolutamente nada de Canadá venham discutir com a gente, mas o debate é vencido nos detalhes, damas e cavalheiros. Portanto, guardem essa cartinha na manga pra quando o William Bonner lhes der o direito a réplica: “Candidato, pois eu tenho aqui um dossiê sobre a sua pessoa, e posso provar que no Canadá não há luz na sala!”. Aí é cinema! É Brizola chamando Maluf de “filhote da ditadura” outra vez.

Pra completar a trindade do inverno, o pior sintoma: a solidão. Especialmente se você foi ao Brasil e voltou pra cá no meio do inverno: percebeu onde mora a maior diferença? Tá, faltam família, amigos, mandioca na manteiga, mas e aquela coisa que você sabe que falta mas não sabe o que é? Pois é o fenômeno de propagação de ondas sonoras conhecido no meio científico como “zoada”. No Brasil, o barulho não para. Carro buzina, moto passa, bêbado grita na rua, tem briga, tem som de barzinho, o interfone toca, “aêo caminhão do abacaxi passando na sua rua!”… Em BH, até pouco tempo passava até o amolador de faca gritando. Daí você chega aqui e… silêncio. Se o amolador passar na sua rua, é a 80 por hora num furgão, tocando um sininho bem discreto. Daí, ou você desiste dele, ou vai ser visto correndo atrás de um carro na rua com cinco facas na mão, como eu eventualmente fiz e não gerou resultados positivos na vizinhança. Mas enfim, o silêncio generalizado dá uma impressão de que você saiu de um ecossistema rico e vibrante e caiu num ecossistema ecossistemático.

Mas é primavera, e ela não é o Tim Maia, mas traz uma rosa para lhe dar. Que as dores do inverno se derretam como a neve que eu não dei conta de limpar, e bola pra frente.

Adeus, cinco letras que choram.

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