André Oliveira & Rodolfo Marques são colunistas do Jornal de Toronto
No Manifesto Comunista, um pouco depois de anunciar na abertura que “o espectro do comunismo rondava a Europa”, Karl Marx e Friedrich Engels descrevem como a ordem econômica mundial se modificara profundamente no século XIX, provocando o crescimento dos mercados com “a multiplicação dos meios de troca e das mercadorias em geral”. O barco a vapor, as ferrovias, o telégrafo, etc. representavam as inovações orgulhosas da Revolução Industrial naquele momento e sinalizavam mudanças profundas nas interações entre os países, entre as classes sociais e sobre o modo como se projetava o futuro.
Marx e Engels imaginaram, então, uma nova ordem mundial, baseada na igualdade social plena sob o rígido controle de uma vanguarda proletária. A Revolução Russa fracassou e o mecanismo da destruição criativa schumpeteriana continuou operando com vigor até chegarmos à atual globalização econômica na qual os serviços prevalecem sobre a indústria, com ênfase para o emprego de energia limpa (ou descarbonizada), o uso da inteligência artificial emerge como desdobramento das inovações tecnológicas, e os países nunca foram tão dependentes uns dos outros no comércio internacional que daí decorreu. Agora, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, embora com projeto diferente do defendido por Marx e Engels, quer igualmente destruir a ordem econômica mundial. Mas o que ele e o movimento MAGA (Make America Great Again) querem colocar no lugar da globalização?
É uma pergunta que, suspeitam todos, nem os construtores da nova ordem mundial conseguem responder com clareza. Da miríade de ideias contraditórias que defendem, vale, contudo, mencionar duas – uma de ordem política e outra de conteúdo econômico. No plano político, resta evidente que Trump e o MAGA não buscam o fortalecimento da chamada “democracia liberal”, mas, ao reverso, pretendem erodi-la o mais rápido quanto for possível. A proximidade com Vladimir Putin, Viktor Orbán e outros líderes autoritários não deixam margem para dúvidas sobre qual é a preferência político-ideológica do ex-corretor de imóveis bilionário e seu séquito. A grande questão é o que pretendem colocar no lugar da velha ordem política liberal.
No site UnPopulist, disponível na plataforma Substack e coordenado pelo cientista político norte-americano Larry Diamond, articulistas traçam um quadro assustador, afirmando que os tecnocratas do Vale do Silício dentro do governo pretendem substituir a democracia liberal – cujo funcionamento se escora no sistema de partidos, eleições livres, livre mercado, etc. – por um governo comandado por uma Inteligência Artificial sob controle (de quem?) desses mesmos tecnocratas do Silício. Sairia de cena a ideia de soberania popular, a única capaz de legitimar o exercício do poder político em sentido amplo, para dar lugar a um governo autoritário-tecnocrático orientado por uma IA comandada por uma seleta vanguarda iluminada de supostos gênios e empresários bem-sucedidos do universo da tecnologia da informação.
Desnecessário dizer o quanto há de totalitarismo político subjacente a essa ideia. Trata-se de revisitar o pensamento de Platão e recobri-lo com as vestes mais reluzentes da TI, conferindo todo o poder a um grupo que decidirá tudo em nome da técnica e da eficiência – Marx e Engels pelo menos sonhavam com uma idílica sociedade de iguais; havia um conteúdo humanístico no projeto, embora fosse utópico. O modo como o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), outrora chefiado por Elon Musk, age, cortando burocratas, desmontando agências permeáveis ao controle social e avançando sobre dados sigilosos e/ou sensíveis do governo federal, sugerem que o projeto é levado a sério.
No plano econômico, Trump tenta replicar o modelo utilizado pelo presidente William McKinley (1897-1901), que protegeu a indústria americana com a imposição de tarifas às importações. Ocorre que a economia mundial se tornou muito mais interdependente hoje do que há cerca de 120 anos. As tarifas de Trump se tornaram tão abusivas e paradoxais que são os comunistas chineses que defendem hoje a globalização econômica e ameaçam levar os Estados Unidos, outrora exemplo de defesa da liberdade econômica, à OCDE por violação das regras do comércio internacional.
O dilema enfrentado por Trump e seu movimento consiste em escolher entre o projeto de derrogação da globalização econômica ou, ao contrário, tentar mitigá-lo, a fim de torná-lo palatável para o resto do mundo. É provável que, se insistirem na radicalização do projeto, Trump e o MAGA acabem atropelados por uma força superior e venham a descobrir, tardiamente (como os soviéticos no passado), que escolheram a opção errada.

