Cristiano de Oliveira é colunista do Jornal de Toronto
No momento em que você lê isso, talvez já saiba o resultado do Oscar – pois é, não dá pra esperar a grande noite pra escrever texto, é preciso adiantar o serviço e deixar tudo prontinho. Portanto, já deixo bem claro: tô por fora. Nesse momento, você já sabe qual foi o “Destino do Poseidon” e eu ainda estou vivendo a “Festa de Babette” (e entregando a idade ao citar películas do tempo do Onça). Ainda vivo a esperança – talvez a ilusão – de que “Ainda Estou Aqui” possa finalmente trazer o merecido reconhecimento internacional ao cinema brasileiro e a Fernanda Torres, além de jogar um facho forte de luz em um momento obscuro da nossa História. Mas que isso nem de longe se confunda com babação a americano: não é uma estátua de um careca dourado que vai dizer o que foi e o que deixou de ser. Aqui, no passado desinformado em que me encontro, só de ver o movimento que causou, a afluência aos cinemas que há tempos não víamos, o debate que foi gerado, e ainda pensar na inspiração que isso vai levar a tantos, eu já estou comemorando vitória. E independente do resultado, vocês aí no futuro podem fazer o mesmo.
É interessante imaginar as duas formas diferentes de se analisar o filme: os olhos do estrangeiro, que nesse momento enche as salas de cinema mundo afora para conhecer esse inusitado candidato ao prêmio de Melhor Filme, analisa enredo, atuações, e a tensão constante do filme na construção e desenrolar da história. Os olhos do brasileiro, por outro lado e inevitavelmente, tentam fazer o mesmo, porém numa luta incessante pra não se distraírem com Fusca, telefone de disco, fósforo Guarany (faltou Pinheiro e Olho), palito Gina, o TL (pasmem: um Volkswagen TL!!) vermelho do Rubens Paiva, taça de sundae da Kibon em formato de flor, filme caseiro em Super 8, revista Manchete, e mais 300 mil pecinhas de cenografia da época que ficam roubando a atenção e tentando nos levar de volta pra casa de vó.
Mas todo mundo acaba tragado pelo clima pesado que paira sobre o filme o tempo todo, derrubando todo aquele “ah, no meu tempo é que era bom”. Não, não era. Quem fala isso, ou vivia a doce inocência da mocidade, ou nem nascido era. Realmente, se o foco for todo em Xaxá, 7Belo, Biscoito Piraquê e Pirocóptero, aí o passado no Brasil era uma delícia mesmo. Mas o reino dos adultos não era nenhum Grapete. Na onda do “Milagre Econômico” criava-se o monstro da dívida externa. Delfim Neto cunhava a frase que melhor representava – e até hoje representa – o desejo do brasileiro de ver o pobre se lascar: “é preciso esperar o bolo crescer pra depois repartir” (ah tá bom: se todos os governantes tivessem ido nessa onda, estaríamos até hoje esperando essa peste desse bolo crescer, porque pra elite brasileira ele nunca é grande o suficiente). O salário-mínimo perdeu mais de 50% do seu valor real até o fim do governo militar. E tudo isso sem falar que, um belo dia, a polícia podia bater à sua porta e te levar pra dar uma volta, quer você tivesse culpa no cartório ou não – e não venha com essa de que “só ia quem merecia”, porque eu sei de experiência própria de quem não sabia levantar nem um revolvinho de água e acabou tendo que ir “responder umas perguntas” ninguém sabe onde. E agora imagine isso tudo aí sem celular, Netflix, compra online, videogame – nem televisão colorida tinha direito! – e um interurbano pro interior parecia o rádio amador de “Alta Frequência”, onde a interferência era tanta que o filho conseguiu até falar com o pai que já tinha morrido. Não, não tinha nada de bom. Aliás, tinha uma coisa boa: o fato de que éramos bem novinhos e ainda faltava muito pra virarmos velhos chatos repetindo que “no meu tempo é que era bom”.
Mas veja que curioso: além da comparação Gringo versus Brasileiro no cinema, eu ainda consegui analisar uma subdivisão do grupo brasileiro, ao assistir ao filme duas vezes em lugares distintos: uma em BH, no Cine Belas Artes, um reduto cultural da cidade (e no caminho, por acaso, encontrei o Valf, extraordinário ilustrador do Jornal de Toronto – ali eu ainda nem imaginava que escreveria sobre aquele dia); e assisti outra vez no Cineplex de Toronto, um dia após o filme estrear por aqui. Uma experiência bastante curiosa: enquanto em BH o silêncio sepulcral permeou toda a sessão, do começo do filme à saída do cinema, em Toronto parecia que todo mundo estava esperando ver um novo “Auto da Compadecida”. Além da falação no meio da sessão, o povo ria de qualquer bobagem. O menino pergunta se a irmã que vai viajar sentirá a falta dele, ela diz que não: o povo se acaba! O menino mente pro pai falando que já conversou com a mãe sobre arrumar um cachorro: o povo se estoura! Véio, tão colocando fluoxetina na água da cidade? Ou cês tão apaixonados? De onde saiu esse risador frouxo? O filme extremamente tenso e o povo parece que tá vendo o Tony Ramos trocar de corpo com Glória Pires. Seria o povo de BH somente mais sisudo do que o resto do Brasil (e o resto do Brasil era obviamente maioria no cinema de Toronto)? Ou estaria o público do cinema daqui só deslumbrado? Seria o fato de que o povo no Cine Belas Artes saiu pra ver um filme que estava revigorando o cinema nacional, enquanto no Cineplex o povo estava indo fazer torcidinha e mostrar pro gringo que nóis é campiaum? Velório total em um lugar, risaiada e aplausos no outro. Houve alguma reflexão após o filme em Toronto, ou somente a realização de termos forçado o público local a provar do nosso fino biscoito? Estávamos lá pelo filme ou pela competição?
Não tiro o meu da reta não. Também adoraria ver “Ainda Estou Aqui” levar a estatueta do careca dourado, e comemoraria imensamente. Mas definitivamente não precisamos de gringo algum pra validar o que concluímos: que é um filme pra mudar rumos e nos exigir atenção à sua arte, história, à beleza e tristeza da narrativa, mas muito mais que isso, para não deixar cair em esquecimento o momento miserável, patético e insano que o nosso país um dia viveu.
Adeus, cinco letras que choram.

