José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto
Pois, acreditem, o jurássico colunista aqui é do tempo dos cartões de Natal em papel. Todo ano era aquela rotina de ir à papelaria comprar uma pilha de cartões para mandar para a família e amigos. Um trabalhinho para escolher mensagens bonitinhas e adequadas a cada um e, principalmente, para não esquecer de ninguém e precisar voltar outro dia àquele acotovelamento de gente. Chegando em casa, era hora de pegar a caneta – conhecem essa semi-aposentada? – e acrescentar uma mensagem para cada destinatário. Enfim, preencher o envelope, tendo que encontrar o endereço de cada um e o bendito CEP.
Por fim, era hora de enfrentar a gigantesca fila nos Correios para colocar os cartões, com a opção de lamber os selos ou usar as grudentas gomeiras. Somado cartões e selos, uma despesinha! Aí eu chegava no trabalho e era a fase dois: me davam uma imensa lista de clientes para datilografar os envelopes dos cartões de Natal da empresa com os endereços e deixar tudinho pronto – não esqueça do “ilustríssimo senhor”! Era trabalho para um dia ou mais! Depois, era olhar a caixinha do correio diariamente, alegrando-se e surpreendendo-se com o trabalho de quem se prestou a lhe enviar um cartão!
Mas eis que chega a internet e a possiblidade de enviar mensagens de Natal sem sair de casa. E grátis, seja na quantidade que for! E para qualquer lugar do mundo! Mais: chegando instantaneamente, ou seja, evitando que a pessoa receba o cartão depois do Natal – o que era comum, especialmente se você deixasse para os últimos dias, com a sobrecarga dos Correios. Eu, com a afetividade típica dos brasileiros do bem (vamos deixar os outros de lado), passei a ter vontade de enviar mensagens a todos os meus contatos da lista de WhatsApp. Que barbada! Que rápido! E sem gastar um centavo!
Porém, comecei a notar que, passado o topo da lista de mensagens do WhatsApp, começa a surgir um terreno pantanoso: gente com quem se perdeu o contato. Aliás, o WhatsApp até troca do nome da pessoa para o número do telefone quando ela cancela a linha, e só lendo as mensagens para ver a quem elas pertenciam. E as criaturas nem se dignaram a te avisar que trocaram de telefone! Outras seguem com o mesmo número ativo, mas simplesmente as mensagens pararam.
No último Natal fui tentar enviar mensagens teoricamente para todos, mais uma vez. Tem gente que conheci em eventos, trocamos WhatsApp e surgiram mensagens entusiasmadas de uma amizade forte que começava. Fogo de palha. Às vezes não passa do primeiro contato. Os “vamos marcar” são respondidos com “estou ocupado”. Ainda dou uma última esperança, mandando mensagem na Páscoa ou Natal seguinte. Silêncio, nem um joinha sequer. Assim, o último final de ano para mim foi de fazer uma limpeza no Whats, deletando velhas mensagens que só ocupam espaço à toa.
No meu espírito de levar amizades e pessoas a sério, sempre torci o nariz para mensagens temporárias. Mas acabei descobrindo que elas têm razão de ser.

