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Os 5 maiores riscos políticos para 2025

André Oliveira Rodolfo Marques são colunistas do Jornal de Toronto

Cá estamos de volta para apresentar o nosso relatório sucinto de riscos políticos para 2025. Consideramos que a democracia chamada liberal, embora imperfeita e insatisfatória em muitos aspectos, deve ser vista como um valor a ser preservado, afinal, trata-se de um sistema político que garante a alternância pacífica no poder por meio de eleições livres e justas, bem como instituições de controle independentes, imprensa livre, oposição leal, etc. O incandescente Donald Trump inicia o seu segundo mandato em janeiro de 2025 fazendo promessas que representam claras ameaças aos valores e às instituições da democracia liberal, como, por exemplo, mandar prender quem no passado moveu ações judiciais contra ele, incluindo servidores públicos. No plano econômico, e ainda por conta de Trump, a possibilidade de uma guerra comercial ameaça sacudir a ordem econômica global. Enfim, 2025 promete ser um ano de alta voltagem no tocante aos riscos políticos e econômicos. Mais uma vez, esperamos que a Eurasia Group, maior empresa de avaliação de risco político do planeta, liderada pelo cientista político norte-americano Ian Bremmer, não fique enciumada com a concorrência aberta pelo nosso “instituto” e pelo Jornal de Toronto – o mercado de predições e de análise de riscos é vasto, há sol para todos. Dito isto, eis os nossos 5 maiores riscos políticos – The Top 5 Political Risks – para o Brasil e o planeta em 2025.

Deflagração de uma guerra comercial ou tarifária

Este é, sem dúvida, o maior risco global para 2025, já que o presidente eleito Donald Trump prometeu proteger a economia estadunidense elevando as taxas de importação para todos, incluindo países aliados. A ameaça levou, por exemplo, o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau a procurar Trump em Mar-a-Lago, já que o líder republicano prometeu subir a taxa dos produtos canadenses em 25%. Trump ainda repetiu a piada na plataforma Truth Social – de evidente gosto duvidoso – segundo a qual o Canadá poderia se tornar o 51º Estado dos Estados Unidos. Quase ninguém riu, é claro, já que 13% dos canadenses aprovam e 82% rejeitam a ideia, segundo pesquisa recente. Mas as perspectivas sombrias nesse campo já têm provocado movimentação significativa dos aliados, como se observa do anunciado acordo entre Mercosul e União Europeia envolvendo um mercado consumidor de 780 milhões de pessoas nos dois continentes. Aqui, os riscos são altos, considerando que o Brasil é um país emergente, mas, precificando tal cenário como foi dito, os aliados já se movimentam para atravessar a tormenta tarifária trumpiana com o mínimo de danos e, se for possível, com alguns ganhos.

Agravamento da crise fiscal brasileira

Além dos efeitos negativos decorrentes do fechamento da economia dos Estados Unidos ao comércio mundial, há o risco real de que a crise fiscal se agrave no plano interno. Descompassos nas interações entre o governo federal e o Congresso Nacional, bem como a continuidade das hesitações do presidente Lula (PT) sobre a necessidade de respeitar o arcabouço fiscal, podem elevar a percepção coletiva de que o controle da dívida pública não tem merecido o tratamento adequado. Como consequência, a inflação recrudesce e o real perde valor em face de outras moedas relevantes, como o dólar americano e o euro. Aqui se trata da potencial ocorrência de uma indesejada falha do governo na reversão das expectativas pessimistas constatadas no final de 2024.

A corrosão da credibilidade brasileira no campo ambiental

Em 2025, a COP 30 ocorrerá em Belém do Pará – estamos bem posicionados para avaliar o evento, já que há décadas vivemos à sombra de suas mangueiras. Caso se repitam os desastres climáticos de 2024 ao longo de todo o território nacional, sobretudo as queimadas na Amazônia e no Pantanal, haverá notório dano reputacional à imagem do Brasil como anfitrião do encontro e à sua pretensão de liderar a agenda ambiental no plano global. Considerando que a COP 30 será em novembro, a preservação dos biomas terá que ser feita desde o início do ano.

Reverberação da crise migratória no Brasil

A imprensa tem informado que há cerca de 11 milhões de imigrantes ilegais nos Estados Unidos e a nossa predição é que Trump conseguirá expulsar parcelas homeopáticas desse contingente para poder proclamar que cumpriu sua agenda de campanha. De qualquer maneira, se levar adiante sua promessa persecutória, muitos brasileiros podem ser alcançados pelo pacote purgativo, sobretudo os que trabalham para os democratas e/ou financiaram a campanha de Kamala Harris. Caso Trump não resolva os conflitos armados na Ucrânia e Oriente Médio, como tem alardeado, muitos imigrantes podem optar pelo Brasil, criando problemas logísticos para o país – recentemente, o crescimento exponencial do número de afegãos abrigados no Aeroporto de Guarulhos em São Paulo provocou discussões sobre o que fazer nesse campo sensível.

A temperatura da hiperpolarização política sobe ainda mais

A prorrogação por mais seis meses do inquérito das fake news pelo ministro Alexandre de Moraes e a eventual prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por envolvimento no revelado planejamento do plano golpista podem provocar o incremento da hiperpolarização política. A extrema-direita se tornaria mais estridente, acusando o STF de estar a serviço do governo do PT, ao passo que o governo federal responderia com o argumento de que o Judiciário atua na defesa das instituições democráticas. Na verdade, esse choque de narrativas já acontece hoje, mas pode ser amplificado com evidentes repercussões deletérias nas eleições majoritárias de 2026. O risco é o de deterioração do debate público, com os principais movimentos políticos acusando um ao outro de inimigos da democracia, de modo a sufocar a discussão ponderada dos problemas nacionais.

Esperamos que tais riscos sejam superados no tormentoso ano de 2025. Desejamos igualmente um Feliz 2025 para a equipe do Jornal de Toronto e para nossos leitores brazucas do Canadá.

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