Rosana Entler é colaboradora do Jornal de Toronto
Aconteceu neste último sábado, 20 de janeiro, no espaço Underscore Projects, o lançamento do livro De outro lugar: vozes da imigração feminina, projeto idealizado e realizado pela livraria Canoa Cultural em parceria com o Jornal de Toronto, com patrocínio da Mellohawk Logistics.
Para contextualizar, não sou jornalista ou crítica literária. Participei do projeto como uma das cinco pessoas que selecionaram os textos publicados e escrevi a orelha da edição. Então, sou sim uma grande fã desse livro e as linhas a seguir são repletas de total cumplicidade à essência desse projeto.
Cheguei ao local do evento e fui logo tomada por uma energia que eu só conseguiria entender ao escrever este texto. A princípio, achei que o espaço, sua luminosidade e paredes brancas seriam os responsáveis por aquela sensação de acolhimento que senti de imediato. As pessoas foram chegando e ali já entendi que as próximas horas seriam de intensas emoções.
Roda de conversa com algumas das autoras do livro “De Outro Lugar”. Foto: José Francisco Schuster.
Andrea Vilella, fundadora da Canoa Cultural, abriu o evento e logo aos três minutos de sua fala ouvi a frase que ficou latejando em minha mente por todo evento: citando uma das autoras, Andrea disse que “publicar esse livro foi um sonho que não ousei sonhar”. E assim eu, sentada ali na primeira fila, de frente para quatorze das vinte e cinco autoras que sonharam, ousaram e concretizaram, recebi esse calor que vem da intensidade do ser mulher, e mais, do ser mulher, brasileira e imigrante.
Não é só sobre a saudade ou sobre o sempre difícil recomeço e adaptação, é também sobre quem gosta de Bethânia porque é intensa, de quem se fosse boa em discursos talvez não gostasse tanto de escrever e ilustrar. É sobre quem não tinha noção que existia um mundão além da cidade do interior onde nasceu. É sobre quem apresentou o vento ao filho nascido durante a pandemia.
Cada autora presente teve aproximadamente dois minutos para falar sobre o que desejasse. O poder do feminino é tão mágico que esses dois minutos em tempo cronológico se transformaram numa vida inteira de descobrimentos e redescobrimentos.
E depois de muita emoção, e até algumas lágrimas roladas durante os incríveis relatos, o evento oficial terminou de forma perfeita e orgânica, com o Marcelo, marido da Branca Sobreira, perguntando às autoras quais as palavras ou expressões brasileiras que elas mais sentem falta de usar por não terem tradução para o inglês. A lista: “oxi”, o gaúcho “capaz”, “valha-me (Deus)”, “saudade”, “xodó”, “dar um cheiro”, “treco”, “vixi”, “mano do céu”, “cafuné”, “borocochô”, “vai pentear macaco”, “a vaca foi pro brejo” e, acreditem, o nosso “parabéns pra você” – afinal, como explicar para o gringo “é pique, é pique, é pique, é pique, é pique, é hora, é hora, é hora, é hora, é hora, ra-tim-bum”?
E assim fomos para os autógrafos já no aguardo pelos novos projetos dessa parceria incrível da Livraria Canoa com o Jornal de Toronto.
Fotos: Hadassa Freddi.

