Um marco de Toronto com a marca do Brasil

O brasileiro Rafael Salsa Correa fala de seu projeto da nova iluminação do St. Lawrence Market.

St. Lawrence Market, em Toronto. Foto: Rafael Salsa Correa.

Alexandre Dias Ramos é editor & Rafael Salsa Correa é arquiteto de iluminação

Jornal de Toronto – O St. Lawrence Market é um dos pontos turísticos mais importantes de Toronto. Como surgiu a oportunidade de trabalhar no projeto de iluminação do mercado municipal?

Rafael Salsa Correa – A prefeitura de Toronto abriu uma competição para selecionar profissionais que poderiam executar o trabalho. O meu escritório ganhou o processo seletivo por causa do baixo custo e alta experiência em iluminação de projetos históricos. O design foi desenvolvido seis meses depois e aprovado pelo cliente.

JdeTVocê se tornou um arquiteto de iluminação reconhecido e trabalhou em importantes projetos, como o Goldring Centre (ao lado do ROM), Robarts Library, Rotman School of Management e Square One, em Mississauga. Você acredita que teria as mesmas oportunidades e visibilidade se tivesse morando no Brasil?

Rafael – Talvez sim. Sempre acreditei que somos responsáveis por nossas próprias oportunidades e que “ter sorte” ou “talento” são ilusões. Oportunidades são conquistadas com sangue, suor, lágrimas, perseverança e muita, mas muita, paciência. Acho realmente importante o esforço para produzir um conteúdo de qualidade, e eu ando fazendo a mesma coisa por 19 anos.

Primeira construção do Market Square, de 1814, em aquarela de Frederic Victor Poole.

Designado como Market Square em 1803, o St. Lawrence Market teve sua primeira construção temporária, feita de madeira, em 1814, e em seguida um prédio “permanente” a partir de 1820, que foi reconstruído em 1831. Parte do prédio que conhecemos hoje foi erguido em 1844/1845, e reconstruído em 1850, após o grande incêndio de 1849. Junto com o mercado, o prédio também foi departamento de polícia e a prefeitura da cidade, de 1845 até 1899.

Prédio do St. Lawrence em 1899. Foto: Alexander Fraser.

JdeTO St. Lawrence é um prédio histórico, que sofreu inúmeras transformações ao longo dos anos, de alojamento à prédio municipal da prefeitura e depois à galpão. Como foi o processo de pesquisa para iniciar o projeto de iluminação e de que maneira a história do prédio influenciou o projeto?

Rafael – A cidade de Toronto já tinha um guia de planejamento urbano de revitalização da parte histórica do centro da cidade, feito em 2008 pelo grande arquiteto de iluminação canadense Philip Gabriel (falecido em 2014). Esse documento incluía o prédio do Mercado e foi utilizado como guia da expectativa da cidade em relação à iluminação do projeto. O guia indicava áreas que poderiam ser beneficiadas com uma nova iluminação, mas deixava a execução a cargo do futuro projetista. Tivemos que adaptar as sugestões de iluminação para incluir soluções mais modernas e incluir as últimas restrições impostas pela cidade, para regularizar a atualização do documento, e ainda incluímos o efeito de luz multicolorida na área das claraboias. Tive acesso a imagens históricas que serviram de base para o desenvolvimento do visual final da fachada e dos pendentes internos.

Foto: Rafael Salsa Correa.

JdeTVocê disse que nunca um prédio em Toronto teve esse nível de detalhamento em iluminação. Explique melhor sobre isso.

Rafael – Esse projeto é um reflexo do meu TOC [risos] e foi minha obsessão nesses últimos anos. No ano que o projeto começou, a empresa italiana iGuzini tinha desenvolvido uma luminária de fachada com quatro graus de abertura de facho de luz com distribuição lateral de 360 graus, em um formato tão compacto que ainda hoje é revolucionário. Essa luminária cria um efeito de lâmina de luz onde toda a luz indireta fica contida no interior do caixilho das janelas, e cada luminária foi ajustada individualmente durante a madrugada para garantir que nenhum grau ou milímetro estivesse fora de alinhamento. Toda a iluminação da fachada é localizada rasante ao prédio. Essas soluções removem o impacto da luz no céu noturno, que é, por exemplo, um problema para aves e moradores vizinhos – e é por essa razão que todas as luminárias de luz indireta no St. Lawrence são desligadas depois das 11pm e durante os meses de migração de aves.

O letreiro principal foi reconstruído para garantir o acesso às luminárias, que estão localizadas atrás e acima dele. Cada detalhe arquitetônico do prédio recebeu um destaque exclusivo da iluminação, o que cria um efeito visual 3D da fachada – algo que é mais comum na Europa do que aqui. A equipe de eletricistas foi excelente na instalação e fez de tudo para que o resultado final fosse milimetricamente igual ao design proposto (o que é raro hoje em dia).

JdeTQuanto tempo levou entre o início do projeto no papel e a finalização da iluminação do St. Lawrence Market? E quais as curiosidades encontradas durante os trabalhos?

Rafael – Foram três anos e muitas toneladas de café espresso consumidas.

Fun facts:

• Tive acesso a imagens de arquivo do início do século passado que mostravam o interior do prédio com pendentes, umas chapeletas brancas. Um fabricante local tinha os desenhos originais da GE sobre esses pendentes de arco-carbono de 1890 (tecnologia antes da popularização das lâmpadas incandescentes). Usamos essa informação para reconstruir a luminária original e utilizamos um equipamento de LED interno como nova fonte de luz.

• A claraboia, que havia perdido a sua função de fonte de luz natural, devido à instalação do acesso ao sistema de máquinas de circulação de ar do prédio, recebeu uma iluminação multicolorida pré-programada, para ser usada durante celebrações anuais e feriados cívicos, como acontece com as luzes da CN Tower.

Foto: Rafael Salsa Correa.

• A maior dificuldade na iluminação de prédios históricos é como preservar os elementos arquitetônicos originais sem chamar a atenção para a iluminação e luminárias modernas. As luminárias foram escondidas de modo a não interferirem no visual do prédio. Onde não foi possível escondê-las da vista do público, caixas metálicas foram construídas em volta das luminárias e pintadas com o mesmo tom de cor adjacente na fachada, minimizando assim drasticamente o impacto visual.

Foto: Rafael Salsa Correa.

• A placa com o nome do St. Lawrence Market na fachada da frente ficava antes logo acima da porta – provavelmente por conta da enorme cobertura curva que unia as duas partes do mercado (norte e sul) e cruzava a Front St. até os anos 1950 – e agora foi para a área acima das janelas. A placa anterior, que já não era a original, teve suas letras copiadas fielmente, mas reconstruída de forma vazada, para que tivesse o aspecto claro durante o dia e escuro durante a noite, criando contraste com sua iluminação.

St. Lawrence Market, em foto de 1952, onde se vê a cobertura curva que ligava o prédio sul ao prédio norte. Foto: James Victor Salmon.

Sobre Alexandre Dias Ramos (17 artigos)
Alexandre é editor-chefe do Jornal de Toronto, mestre em Sociologia da Cultura pela FE-USP, doutor em História, Teoria e Crítica pela UFRGS, e membro-pesquisador da Universidade de São Paulo. É editor há 20 anos e mora em Toronto, Canadá.

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